Criamos uma marca inspirada na tradição portuguesa da pesca do bacalhau nos Mares do Norte. Como esta tradição nos corre nas veias, não foi difícil acrescentar-lhe lucidez e conhecimento. Profundidade. Mas retiramos-lhe toda a carga negativa e triste que em tempos esteve associada a esta atividade. Trata-se de um restaurante de mono produto, o bacalhau, e desde logo fraturamos no naming e branding que naturalmente fazem sorrir, tudo o que nós queríamos para esta “festa do bacalhau”. Recuperamos receitas de bordo, e outras tantas foram reinventadas pelo Chefe Lhau. O conceito está a ser testado num espaço piloto, na baixa do Porto, para depois ser formatado num programa de expansão nacional e internacional.

Ao contrário do que tem acontecido com o Bacalhau, o mercado e o consumidor constantemente se têm modernizado. Identificamos então com facilidade uma lacuna no mercado da oferta de restauração. Para a colmatar, a equipa do Sr. Luis Pedro constituiu o conceito Lhau! Lhau! Maria! assente em valores de modernidade, diversão e inovação, com caraterísticas muito elásticas, comunicando de forma divertida, inteligente e responsável: Lhau, Lhau, a festa do bacalhau!

Chegou a hora de dar a Portugal, e ao mundo, o prato mais apreciado pelos portugueses, mas em versão renovada. O Lhau! Lhau! Maria! é uma celebração do que é nosso. Por isso grita para lembrar que o Bacalhau não merece ser um produto aborrecido. O bacalhau é fixe!

Queremos que este espaço seja o melhor dos locais para se degustar bacalhau e, em simultâneo, o restaurante mais feliz do Porto. Imputamos diferenciação através da marca e do produto. Por um lado, é um espaço que contraria a tendência arquitetónica na criação de restaurantes – aqui temos muita mais cor e muita mais alegria; por outro, gastronomicamente falando, quisemos que o conceito se afirmasse como o sítio onde melhor se come bacalhau, único ao nível da inovação e da recuperação de receitas antigas.

É nosso objetivo abranger todos os mercados, todas as idades, num target transgeracional. O segredo do sucesso é comunicar para o segmento mais influenciador e falar para ele, o jovem adulto entre os 25-35 anos. Se comunicarmos bem para este segmento, todos os outros, mais novos e mais velhos, conhecerão o Lhau! Lhau! Maria!

E assim se justifica mais um projeto da equipa do Sr. Luis Pedro: tradição e modernização; respeito e sofisticação; inovação e diversão. Mas o Lhau! Lhau! Maria! leva o bacalhau muito a sério e conhece bem as histórias de marinheiros solitários em mares gelados…

Da solidão até à festa do Bacalhau

A pesca do bacalhau, praticada pelos portugueses nos mares da Terra Nova e mais tarde na Gronelândia, foi uma atividade efervescente mas hoje é praticamente desconhecida de todos nós. A equipa do Sr. Luis Pedro fez um profundo levantamento histórico das “estórias” mágicas dos pescadores portugueses que nesses mares gelados partiam, solitários, em seus Dóris, capitães e senhores do seu tempo e destino. Doris era o nome das pequenas embarcações que partiam desde o navio-mãe apenas com um pescador a bordo.

Quando o sol se aproximava da linha do horizonte, começava no convés do navio-mãe um bulício crescente em movimento e som, com o despertar de muitos homens para mais um dia de faina. A tripulação começava por receber o isco num bloco congelado de cavala, sarda ou lula que, estoirado no convés, se abria em fendas para os marinheiros separarem e cortarem em pedaços para dentro de um balde. Os pescadores dos navios bacalhoeiros em campanha permaneciam na faina por largos meses enfrentando no mar gelado, nevoeiro cerrado e camaratas iluminadas por candeeiros a petróleo. Experimentavam a fragilidade dos Dóris, rezando para que o número de homens embarcados fosse o mesmo à chegada da campanha. Como quanto mais pescassem, mais ganhavam, alguns, num dia de pesca farta, abusavam da tranquilidade do mar e carregavam excessivamente o seu bote. Além do pescador, sentado no seu banco, nada mais se via à superfície da água, a não ser uma nesga da proa e da popa do bote. E quantas vezes esta alegria acabou em tragédia! O mais pequeno descuido ditava a sentença. O bote afundava-se. Se alguns se safaram graças à rápida intervenção da sua santa padroeira, nem sempre atenta, outros houve que não evitaram a morte por hipotermia. Em terra deixavam mulheres vestidas de negro pela incerteza da chegada dos seus maridos: as “viúvas de homens vivos”.

A alegria só era retomada ao fim de cada dia, a bordo do navio-mãe, ao som de “música dopante” do conjunto Maria Albertina ou dos corridinhos do Algarve, marcando o ritmo com que os rapazes trabalhavam o bacalhau. Todo o navio virava uma grande festa. O bacalhau cozinha-se de mil e uma maneiras, é sabido, e tudo se aproveita. Bochechas, línguas, badanas, bexiga, lombos… Quem o arrastou do fundo do mar vai agora transforma-lo em carga válida. A brejeirice está presente a bordo em cantigas como “fode o boi, fode o cavalo, fode o carneiro e o peru; a galinha não tem cona, por isso leva no cú” ajudando os pescadores a desmancharem o bacalhau que passava por cinco fases distintas: trote e evisceração, parte cabeças, escala, lavagem e salga. Quando isso acontecia, todo o navio virava um arraial de doidos.

Hoje, celebramos o esforço destes homens que trouxeram à pátria o pão dos mares.

Anjo Branco

Não havendo enfermeiro a bordo, todos os tratamentos eram da responsabilidade conjunta do imediato e do capitão. Em casos mais graves lá estava o Navio Hospital Gil Eannes, o Anjo Branco.

Nos bancos da Terra Nova, o Gil Eannes, alem das funções de navio hospital que lhe mereceu a alcunha de “Misericórdia do Mar”, distribuía correio, procedia a abastecimentos de mantimentos, combustível, apetrechos de pesca e isco. Foi rebocador, salva-vidas e quebra-gelo: quando um Dóri ficava encalhado no gelo, o Gil ia ao local, quebrando o gelo com o seu casco de aço, e abria o sulco de retorno ao barco sinistrado.

Hoje descansa, eleva-se e revela-se em Viana do Castelo para a história de Portugal.

Lhau, Lhau, a festa do bacalhau!

Estão todos convidados para a festa a bordo do Lhau! Lhau! Maria! A marca devolve-nos tudo isto, todo este património que a equipa do Sr. Luis Pedro não quer que caia em esquecimento: as estórias, a festa e as receitas de bacalhau – as mais antigas e as reinventadas propostas de autor.

Desde o Dóri até à sua mesa, Lhau! Lhau! Maria! grita, eleva, celebra, democratiza e garante que o bacalhau não é chato.

E a festa continua!

Curiosidades – Deusas na Palma da Mão

O espírito destes pescadores, sob o peso da saudade e da longa continência, facilmente entrava no mundo dos sonhos de visões idílicas que os arrebatava. E viam sereias a emergir do mar, exibindo até à cintura o encanto fascinante dos seus corpos etéreos. Cada um deles conhecia bem os rostos encarnados nestas míticas criaturas que agora lhes sorriam e se revezavam numa sequência inebriante, ao sabor do seu pensamento atormentado pelo desejo de posse, o que fazia aumentar a “raiva”. Quem é que não entende este apelo, filho puro da natureza, que juntamente com a fome constituem os dois mais fortes instintos do ser humano? De olhos fechados, as suas deusas envolviam-se totalmente, despojadas de véus. Perfeitas, belas, puras e ardentes. Verdadeiras estrelas de luz, dispostas a tudo. Lentamente e sem pressa entregavam-se sem reservas na palma da mão.

Curiosidades – O Derrube do Milhano

– Pois meus amigos, é como vos digo. Aquelas marcas artísticas que vocês aí vêm, resultam de facto de “derrube”, não de índios, mas sim do “Milhano”. Estão a entender-me?

Rodava a cabeça envolvendo-os a todos, que pareciam crianças fascinadas à espera da revelação última. Meios atordoados, ainda não tinham apanhado o significado da conversa sobre o “derrube do milhano”, enquanto o folgazão continuava a mantê-los suspensos na sua pose de bruxo ou vidente. Por fim, como quem conta uma história a que tivesse assistido, começou a explicar tudo:

– Prestem atenção. Cada marca na borda do bote, só é gravada depois da “irmã da canhota” sempre presente, ávida e solícita, ter cumprido a sua obrigação, “derrubar o milhano”. Sempre que este arrebita demasiado a cabeça, armado em “pau de surriola”, ou “pau de gurupés”, será que vocês entendem, seus cabeças de nabo?

E com a mão fez o gesto.

– Tem de ser posto abaixo, derrubado, deixado em pose de total falência operacional. Por vezes, mercê de truques criados pela fantasia, a luta prolonga-se por mais tempo e todos vocês sabem disso. Quando isso acontece entra de serviço a irmã sobressalente, a canhota, chegam a revezar-se, quando não são mesmo as duas em conjunto a “esganar o safardana”.

Os rapazes riam como doidos com as explicações minuciosas do inspetor descobridor. Alguns pediam detalhes explicativos para a desigual dimensão das figuras gravadas, a que ele respondia com aparente acerto:

– Então, reparem, o tamanho das gravações depende da duração de cada festa. As mais pequenas correspondem a uma “rapidinha”, as maiores, com pequenos apêndices ornamentais, têm direito a champanhe entre os assaltos, até o gajo se arriar de vez.

Curiosidades – Glosário de Bordo

Arriar – Pôr os botes fora

Amuras – Partes laterais da proa do navio

Armar remos – Colocar os remos nas forquetas

Ajoujado até às almácias – Cheio até não poder levar mais

À boca pequena – Em voz baixa; ao ouvido

Alçou – Morreu

Alfario – Desencabrestado com o cio

Acender cigarros – Mais em brasa que um isqueiro

Agansaram – Engalfinharam-se

Esganar – Calar

Andamento prestíssimo – O mais rápido

Alfagucho comunitário – Pequena celha de madeira; bacia

Bomba – Coração

Bartedouro – Espécie de pequena pá em madeira para escoar água das embarcações

Bigorrilha – Pessoa sem classe

Barrela palratória – Arte do ratanso

Bardajona – Mulher mal achambarcada

Berlinda – Em foco

Brisa cavaleira – Mau tempo mas não grave

Castelo de navio – Parte elevada à proa ou à popa de um navio

Casota – Construção de proteção à entrada de alojamentos e do leme

Caleche – Copo de vinho

Confesso – Admissão pública

Corte e confeção – Má língua

Derrubar o milhano – Operação feita pela irmã da canhota

Estanhado – Liso; sem ondulação

Estrafego – Equipamento de trabalho dos pescadores

Entremeio – Renda decorativa

Employment Office – Centro de emprego

Foquim – Lancheira típica para os pescadores levarem a comida para o mar

Furniche – Furniture; peças de mobiliário da casa

Friza – Frigorífico

Lambidela – Vaga de raspão

Lâmpadas fundidas – Pretos

Mordida – Rapariga já furada

Música dopante – Música apressada; corridinhos

Macanjo – Individuo metediço

Majicar – Pensar

Milhano – Órgão sexual masculino, Verga, Mastrago, Safio,…

Pau de surriola – Verga horizontal, saída do costado de um navio para amarrar embarcações miúdas

Presentes – Neste caso significa “Fezes”

Pívia – Sem importância. Não dar importância.

Picheira – Bilha com vinho

Rego cheio – Até cair pro lado sem forças para mais.

Raiva – Aqui significa desenfreamento sexual

Sasmano – Encarregado de por os doris fora

Salto, Saltar – Fugir num porto estrangeiro

Sota – Oportunidade

Tocar ao rasgado – Iniciar a cavalgada com uma mulher

Transar uma nice – Mudar o óleo numa casa da especialidade

Trolada chôcha – Pesca fraca

Tramping – Modalidade Mar. Mercante onde os navios saem sem destino certo

You fucking d.p – Seu emigrante do… d.p; significa displaced people ou seja emigrante.

 

Bibliografia

“Heróis que o Tempo não Apaga – um conto real de vida…”

De Valdemar Aveiro

www.lhaulhaumaria.com

Este artigo relata a investigação histórica levada a cabo pela equipa do Sr. Luis Pedro para que a construção da marca LHAU! LHAU! MARIA! fosse divertida, sem ser fútil; pelo contrário, pretendia-se que fosse profunda, com conhecimento sobre a tradição portuguesa na pesca do bacalhau nos mares gelados do Norte. Uma marca lúcida!

Luis Pedro

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