Aceitem o convite e embarquem nesta viagem por terras de Zeca Afonso.

Durante décadas a mensagem musical deste senhor chegou até nós exclusivamente preenchida de carga política. Acontece que a obra de Zeca Afonso encerra em si muitas outras mensagens… poéticas, melódicas, harmónicas e rítmicas, alem de temas muito pouco popularizados.

Despolitiquisar Zeca Afonso, e desvendar todas as outras mensagens, permite, finalmente, reposicionar a sua obra no patamar que lhe é devido e justo, ao lado de reconhecidas referências mundiais como Tom Jobim, Vinícios de Morais ou Jacques Brel.

Este foi o desafio a que se propôs Davide Zaccaria, músico italiano a viver em Portugal desde 2000 e mentor do projeto musical “Por Terras de Zeca”, agora editado, pensado para comunicar essencialmente com as novas gerações, ávidas de informação “limpa” e de música pura!

Sem duvida que a música de intervenção é um dos grandes pilares da moderna música portuguesas, com contributos que vêm desde Fausto a Sérgio Godinho, passando por José Mário Branco ou Carlos do Carmo. Contributo este tão forte quanto o do fado ou o do folclore.

Mas nem só de intervenção vive a música de Zeca…

Enquanto concerto centralizado na figura de Zeca Afonso, este trabalho é um tributo à sua obra, quer como compositor, quer como poeta, mas também um tributo a Portugal, em forma de agradecimento, país de acolhimento de Davide Zaccaria.

Um espetáculo onde não faltam clássicos como “Verdes são os campos”, “Que amor não me engana”, “Índios de meia praia” ou “Venham mais cinco” revestidos de novos arranjos, ao lado de outras composições menos conhecidas, como “Papuça”, “Lá no Xepangara” e “Ali está o rio”. O espetáculo conta com interpretações em variados formatos, nomeadamente em dueto, trio ou quarteto e terá uma duração aproximada de uma hora e vinte minutos.

Arranjos e Direção Musical  – Davide Zaccaria

Vozes – Filipa Pais, João Afonso, Maria Anadon e Zeca Medeiros

Músicos – André Sousa Machado (bateria), Armindo Neves (guitarra elétrica), Davide Zaccaria (guitarra acústica e violoncelo), Luís Pinto (baixo) e Paolo Massamatici (oboé)

Edição: Tradisom

Filipa Pais: Quem não se lembra da sua estreia cantando “Queda do Império” de Vitorino Salomé? Em 1991 integra o projeto Lua Extravagante e em 1996 lança o seu primeiro disco a solo “L’Amar”. Colabora com António Chaínho e participa na peça “Alma Grande” do grupo de teatro “O Bando”. O seu segundo álbum, “À Porta do Mundo”, é editado em 2003 e no ano seguinte grava “Estrela” com José Peixoto. Em 2005 participa em “Cantos na Maré” acompanhada por Chico César (Brasil), Uxía (Galiza), Manecas Costa (Guinné Bissau), Xabier Díaz (Galiza), Jon Luz (Cabo Verde), Astra Harris (Moçambique) e Batuko Tabanka (Galiza-Cabo Verde). Com Janita Salomé, Rita Lobo e Yami grava “Muxima”, tributo à obra do Duo Ouro Negro e participa no espetáculo “Memorial” com Carlos Mendes e Fernando Tordo.

João Afonso: Sobrinho do próprio Zeca Afonso, colheu influências da música urbana africana e da música popular portuguesa, e a sua colaboração em “Maio, Maduro Maio”, parceria com José Mário Branco e Amélia Muge, valeu-lhe a atribuição do Prémio José Afonso em 1994. Missangas (1997), o seu primeiro álbum a solo, fez jus ao título de Melhor Voz Masculina Nacional, distinção do jornal Blitz, seguindo-se “Barco Voador” (1999), “Zanzibar” (2002) e “Outra Vida” (2006). Colaborou em projetos de Júlio Pereira, Luís Pastor, Uxía, Filipa Pais, Mestisay e Quinta do Bill. Em 2014 edita “Sangue Bom” musicando poemas de Mia Couto e José Eduardo Agualusa.

Maria Anadon: Perseguida anos a fio pela pergunta “Maria, porquê o jazz?” batiza o seu primeiro álbum de “Why Jazz?” e na contra-capa responde: “That´s Why!” Fez-se acompanhar pelo quarteto feminino norte-americano Unpredictable Nature, com quem fez diversas tournées nacionais e internacionais, numa parceria que se vai repetir em mais alguns projetos.  Segue-se, em contra-ponto, “Cem Anos”, integralmente interpretado em português, onde viaja por esquecidas bandas sonoras do cinema nacional. Em 2000, a convite do pianista Arrigo Cappelletti, parte para uma série de concertos em Itália num projeto inovador de fado e jazz, com textos musicados de Fernando Pessoa, Sofia de Melo Breyner, Mário de Sá Carneiro e Teresa Rita Lopes entre outros. Mais tarde integra o projeto “Terra d’Água”, seguindo-se os CD´s “A Jazzy Way” e “Smile”, de novo com as amigas americanas. Em 2016 edita “Recantos da Alma”, uma abordagem jazzy à lusofonia.

Zeca Medeiros: Músico, compositor, ator e realizador, responsável por obras do cinema e da televisão pública como “Mau Tempo no Canal”, “Xailes Negros” ou “Gente Feliz com Lágrimas”, não só como realizador, mas também como autor e interprete das respetivas bandas sonoras. Destaque para a sua participação no projeto Ala dos Namorados e para os prémios José Afonso com o CD “Torna Viagem”, Prémio Carreira, Prémio Prestígio Açores 2006 e para a nomeação Prémio Autores do melhor tema de 2011.

Os grandes Mestres da cultura e das artes sempre têm sido – e bem – objeto de imitações, glosas, citações, interpretações e reinterpretações. E sempre resistem a tudo. No meio da enorme massa variegada de sequelas das suas obras, que são como a cauda de um cometa que atravessa os tempos, creio que a principal distinção a fazer é entre aquilo que está mais perto da cabeça do cometa (a fonte de luz, a obra de referência) e aquilo que, por limitações do ato (re)criativo, vai ficando para o fim da cauda e acaba por se perder na escuridão de um tempo efémero: uma gama infinda de possibilidades e gradações entre a prossecução do génio e uma espécie de entropia do consumo. Por isso os Mestres são sempre um objeto de estudo. Eu escuto atentamente toda a obra do Zeca pelo menos duas vezes por ano, e sempre encontro emoções, pormenores, novas ideias em que não tinha reparado. Estou sempre a aprender. Faz parte desse estudo conhecê-lo bem – as soluções melódicas, harmónicas, rítmicas, poéticas -, ser capaz de o imitar o melhor possível, para a partir daí tentar o salto para a “cabeça do cometa”. José Afonso é um Mestre, um caso exemplar de autorcompositor-intérprete, um caso de personalidade criativa completa e inigualável, uma luz que nunca se apaga, e que ilumina até aqueles que não o conhecem, ou não o conhecem bem. Como se pode compreender no “Siddhartha” de Hermann Hesse, os Mestres, de facto, não existem, são apenas bússolas. O caminho – certo, errado ou assim-assim – é feito pelos discípulos. Por isso as obras de recriação, embora inspiradas pelo Mestre, são de facto a expressão do recriador – do seu talento e dos seus propósitos. José Mário Branco – Janeiro de 2018

Luis Pedro

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